Em entrevista ao Diário de Aveiro e à Aveiro FM, José Luís Pereira (Zé Lu, como é publicamente conhecido) adverte para a situação financeira do grupo, ironizando: «Ainda não vendi a medalha para fazer dinheiro para a companhia». Denuncia também a forma como se processa a atribuição de subsídios no país. «Há graus de familiaridade e de intimidade entre os apoiados e os que apoiam. […] Há lobbies implantados dentro do Ministério, que se apoiam muito uns aos outros». Questionado sobre a realidade local, este albergariense de 60 anos dirige reparos ao Teatro Aveirense, que esteve durante dois anos sem convidar a Companhia para espectáculos. «Naturalmente não gostam da CDA», avalia, concluindo: «Cada vez mais quem está à frente dos teatros só põe os amigos ou quem tem alguma influência»
Como recebeu a notícia da atribuição da Medalha de Mérito Cultural à CDA?
Penso que é uma homenagem justa. Na nossa vida ligada à cultura, há sempre muitos altos e muitos baixos. Também temos grandes satisfações, mas por vezes sofremos muito. Foi uma medalha que nos foi entregue, uma palavra que nos foi dita… E ainda não vendi a medalha para fazer dinheiro para a Companhia… Sentimo-nos bem por terem reconhecido um trabalho de muitos anos. Espero que daqui a 25 anos haja outra medalha, para quem estiver cá. É uma ciosa difícil, arranjar quem se queira dedicar a isto a tempo inteiro – as pessoas não têm disponibilidade, isto não dá dinheiro, a única coisa que pode dar é algum prestígio… Torna-se muito difícil ter pessoas que se queiram dedicar a estar à frente de uma associação, ter que arranjar verbas constantemente para pagar a uma companhia profissional, porque nem sempre as verbas vêm atempadamente... Nestas coisas da cultura é sempre tudo muito estranho. Nós não estaremos por aí além colocados no Ministério da Cultura para podermos ter outros apoios, estamos aqui na província. Muitas vezes os políticos falam em descentralização mas isso é uma coisa que não existe.
É preciso estar bem colocado no Ministério da Cultura para obter bons apoios? É assim que as coisas funcionam?
A realidade é essa. Ao fim destes 25 anos, só de há três anos para cá é que vem uma pessoa acompanhar as nossas actividades, anteriormente não sabiam nem estavam preocupados. Davam apoio mas nem vinham verificar aquilo que fazíamos.
Essa mudança deu-se com o novo Governo?
O chamado apoio sustentado já existia desde o tempo de Manuel Maria Carrilho. Nós temos apoio sustentado há quatro anos – este é o nosso último ano –, mas só há três é que nos vêm a acompanhar. Este ano acaba o nosso apoio, e estive há pouco tempo em Lisboa para conversar com o director-geral das Artes para saber o ponto da situação. Nós não vamos muito a Lisboa e por acaso ele estava disponível e recebeu-nos, embora passados uns dias ele tenha pedido a demissão. Mas perguntei como era o futuro do apoio à nossa companhia, e ele disse que no segundo semestre vai haver uma nova legislação – as estruturas apoiadas há mais de 15 anos poderão fazer um protocolo directamente com o Ministério da Cultura, quando o que se passa actualmente é que, com o apoio sustentado, concorremos com outras estruturas em igualdade de circunstâncias, mesmo que sejam grupos com meia-dúzia de pessoas que se tenha juntado e sem provas dadas. Isto é injusto. Estas coisas são aborrecidas de dizer, mas há graus de familiaridade e de intimidade entre os apoiados e os que apoiam, e nós estamos fora disso tudo, não temos ligações nenhumas com a cultura em Lisboa. Há lobbies implantados dentro do Ministério, que se apoiam muito uns aos outros.
Tem alguma garantia de que a CDA será contemplada por esse novo modelo de apoio?
Em princípio estão a organizar as coisas e disseram que no segundo semestre iria sair a legislação para os apoios às estruturas existentes. Aqui na zona Centro do país há três estruturas de dança. Uma delas é a companhia do Paulo Ribeiro – independentemente do trabalho dele, o Paulo Ribeiro é padrinho de casamento de Manuel Maria Carrilho e da Bárbara Guimarães… Eles são de Viseu e o primeiro teatro a ser recuperado em Portugal, no âmbito da rede de teatros, foi o Viriato, em Viseu, e o Paulo Ribeiro foi colocado como director com a sua companhia de dança. Ninguém está a diminuir o valor que o Paulo Ribeiro tem, tanto mais que quando fazíamos o Abril Mês da Dança foi uma das nossas companhias preferidas, mas há estas ligações.
E há vantagens?
Há de certeza. É lógico que se tenho várias pessoas para apoiar, apoio em primeiro lugar os amigos – que têm valor – do que os outros que não conheço.
Mas a maior fatia do orçamento com que a CDA vive provém do Ministério da Cultura.
Sim. O restante vem da Câmara de Aveiro e dos «cachets» dos espectáculos que fazemos.
A Câmara tem cumprido os seus compromissos?
A Câmara, como toda a gente sabe, pediu um empréstimo de 58 milhões de euros para pagar a associações, mas não foi aprovado e esse dinheiro ainda não veio.
A CDA também é credora da Câmara, portanto?
Bastante.
Qual é o montante da dívida da autarquia?
Deve rondar os 30 mil euros. Torna-se difícil porque todos os fins-de-semana pago aos nossos seis bailarinos profissionais – valores que andam por semana entre os 50 e os 150 euros. E houve uma grande dificuldade em arranjar bailarinos para a CDA – fizemos audições em Portugal e conseguimos pôr duas portuguesas a dançar… Há dois meses perdemos uma bailarina para o Bolshoi e tivemos que meter outra, mas não a encontrámos aqui e tivemos que fazer uma audição no Brasil para a substituir.
Não é atractivo para os bailarinos portugueses?
Eles não assumem. Por que é que a maior parte dos bailarinos nas companhias em Portugal são estrangeiros? Porque o português não assume a formação em dança. Vamos ver as escolas de dança e não há nenhum pai que queira que um filho vá para bailarino, porque não tem futuro nenhum. É esta a realidade de uma cultura que recebe 0,4 por cento do PIB, embora a cultura dê ao PIB quatro vezes mais. Estamos bastante atrasados na cultura, mas a cultura pode resolver imensos problemas – há miúdos por todo o lado que não têm nada para fazer, que passam o tempo nos cafés, a jogar, nas drogas…; mas deviam ter possibilidade de terem actividades desportivas e culturais atractivas. Tem de haver o direito de experimentar cultura; qualquer pessoa, rica ou pobre, devia poder ter acesso à cultura. E há imensos talentos que se perdem porque nem sequer são descobertos.
Por que é que a CDA é constituída sobretudo por bailarinos estrangeiros?
Há dificuldades em arranjar portugueses. Nós queríamos ter mais portugueses, mas torna-se difícil. Só um ou outro é que seguem uma carreira profissional. Há muito poucos bailarinos com qualidade para serem profissionais aqui no país. Só em Lisboa, porque em Lisboa há imensos biscates que podem dar receitas. Mas não há pessoas que queiram ser bailarinos em Portugal.
A residência artística da CDA é no Teatro Aveirense?
(risos) Acho que é uma provocação. Há dois anos que o Teatro Aveirense não nos contacta para fazer o que quer que seja. Somos uma companhia apoiada pelo Governo brasileiro para um espectáculo em Lisboa, ainda agora temos um convite para ir a Arcachon, mas o Teatro Aveirense não nos diz nada. Absolutamente nada. No estrangeiro, qualquer teatro faz todo o possível para ter uma companhia de dança residente, e de teatro… Aqui parece que têm medo. Têm uma sala espectacular, que não está ocupada por aí além, e seria natural termos uma companhia a trabalhar lá.
E não têm porquê?
Não sei. Acho que é uma questão de independência das pessoas.
Como assim?
De quererem não estar dependentes de ter lá alguém metido dentro, como deviam ter. Um teatro deve ser uma coisa viva.
A CDA estaria disponível para ser a companhia residente do Teatro Aveirense?
Nós somos residentes em Aveiro, temos um espaço onde trabalhamos… Mas acho que tinha mais dignidade estarmos a trabalhar num teatro, tem outras possibilidades. Não estou a pedir para ir para o Teatro Aveirense, mas tinha outra dignidade. Por que é que o Teatro Viriato tem lá a companhia do Paulo Ribeiro? Em Portugal não há muitas companhias de dança – não há em Coimbra, em Braga…
Como é que a CDA esteve dois anos sem fazer nada no Teatro Aveirense?
Tem de perguntar à directora artística, à programadora.
Mas qual é a sua explicação para isso?
Não sei. Naturalmente não gostam da CDA.
Não gostam?
Não faço ideia. Ela [Ana Figueira, directora artística] conhece-nos há imenso tempo, mas naturalmente não gosta. Damos poucos saltos e não nos despimos (risos).
Esta situação não é desmotivadora?
Eu lamento. Os santos da casa não fazem milagres.
Como olha actualmente para a cultura aveirense?
As pessoas têm de se convencer que para haver cultura tem de haver apoio à cultura e para haver apoio à cultura tem de haver dinheiro. Mas a realidade é que não há dinheiro. Há dinheiro para as grandes coisas, mas as pessoas não apoiam as coisas médias e pequenas. Aqui em Aveiro podíamos ter um apoio maior ao nível do mecenato, mas as empresas andam todas a fazer um equilíbrio muito grande e uma ou outra maior que pudesse apoiar têm as administrações em Lisboa.
Mas há decisões que se tomam em Aveiro, quanto mais não seja por parte das autarquias.
Mas é toda a gente muito fechada. Por exemplo: foi aberto um centro cultural em Ílhavo e está lá um director que veio de Santa Maria da Feira; nós já solicitámos ser ouvidos mas nem sequer nos respondem. Isto é o que acontece pelas câmaras todas do país.
Acha que o Centro Cultural de Ílhavo tinha pelo menos a obrigação de vos receber?
Eu já nem digo recebidos; ao menos que respondam a dizer qualquer coisa. É o mínimo que se pode fazer.
Afirmou no início que a CDA não tem peso em Lisboa. E pelo que diz dá ideia que nem na região de Aveiro tem força e influência.
Nós fomos fazer um espectáculo a Sever do Vouga, foi o primeiro espectáculo de dança no Centro das Artes, e no dia 7 de Junho vamos estar outra vez nesse concelho; no dia 5 de Junho vamos estar em Ovar e em Aveiro, na Feira do Livro… Mas acho que cada vez mais quem está à frente dos teatros só põe os amigos ou quem tem alguma influência.
Ao fim de 25 anos de existência, a CDA não poderia ter já essa capacidade de influência?
Acho que sim. Mas se as câmaras não têm dinheiro para estar a comprar espectáculos, torna-se difícil. E há outras coisas: hoje em dia, quando se fala de dança, muitos vereadores da Cultura têm medo que venham umas pessoas que dêem uns saltos e que se dispam, e eles não querem apresentar isso. Em geral, o vereador da Cultura é o elo mais fraco – não digo cá em Aveiro, mas em muitos sítios é assim. Nós fazemos o que podemos.
Maria José Santana e Rui Cunha |