Trabalhadores receiam que Aerosoles esteja a caminhar para o abismo
Pedro Ribeiro da Cunha, administrador do Grupo Investvar, bateu com a porta, num gesto que está a ser interpretado pelos funcionários como sendo o fim anunciado
Luís Ventura, com Lusa
Os mais recentes desenvolvimentos da situação no grupo Investvar não são animadores. O Governo não avançou com a viabilização até ao dia 30 de Novembro como estava previsto e Pedro Ribeiro da Cunha demitiu-se da presidência do Conselho de Administração. Tudo junto leva a que os trabalhadores pensem que a empresa possa mesmo vir a fechar.
Pedro Ribeiro da Cunha demitiu-se, esta segunda-feira, da presidência do grupo Investvar por achar que tem sido marginalizado pelo Ministério da Economia que continua sem decidir sobre o futuro do maior grupo português de calçado, representante da marca Aerosoles.
“Bati com a porta e renunciei aos cargos que exercia na Investvar, pedindo a demissão ao Conselho Fiscal”, informou Pedro Ribeiro da Cunha, que se mantém na empresa apenas até final do mês. “O secretário de Estado nunca falou comigo, mas com a presidente do sindicato do calçado falou várias vezes. Preferiu falar com os sindicatos do que com a entidade patronal, o que me espanta no Ministério da Economia”, acrescentou.
Ribeiro da Cunha realçou “a tragédia social” dos cerca de 650 trabalhadores das três fábricas do grupo que têm os salários em atraso. “É horrível. Não pagamos os salários de Novembro, não pagamos o 13.o mês e a empresa não tem fundos para fazê-lo, o que é uma tragédia social. Há 650 trabalhadores que vão ficar numa situação dramática”, referiu.
Ministério desmente
O Ministério da Economia já desmentiu oficialmente estas declarações do gestor, tendo assegurado que Pedro Ribeiro da Cunha foi recebido pouco depois da tomada de posse do novo Governo “pelo secretário de Estado Adjunto, da Indústria e do Desenvolvimento, Fernando Medina, e pelo próprio ministro Vieira da Silva”.
A tutela nega, assim, as declarações do gestor que desconfia que foi “usado no processo para chegar às Legislativas”. Na base do pedido de demissão de Ribeiro da Cunha parece estar ainda o facto de o Governo não ter cumprido o prazo de 30 de Novembro para apresentar uma solução para a Investvar.
A empresa está a braços com uma grave crise financeira - sem dinheiro inclusive para pagar os salários de Novembro aos seus cerca de 650 trabalhadores - a que se junta ainda a indefinição quanto ao plano de reestruturação.
O Ministério da Economia já deixou perceber o seu desagrado com o plano de reestruturação apresentado por Pedro Ribeiro da Cunha. Este defendia a conversão de parte da dívida bancária em capital social e pela separação da Investvar em duas empresas, uma comercial e outra industrial.
Basílio Horta, presidente da Aicep Capital, accionista da Investvar disse desconhecer a situação e se há nomes apontados para a sucessão.
Investvar continua à espera do Governo
O futuro da Investvar, que pretende substituir em 2010 a marca Aerosoles pela Move On, continua dependente de uma solução que está a ser elaborada pelo Ministério da Economia. Ao ministro Vieira da Silva colocam-se duas hipóteses: uma aponta para a insolvência e a outra passa pela criação de uma nova sociedade, para a qual seriam transferidos os activos da empresa de calçado.
Para esta última solução ser viável, o Ministério teria ainda de encontrar um privado que pudesse assumir o controlo da empresa, o que na actual conjuntura económica não se afigura nada fácil.