Universidade integra biblioteca virtual para portadores de deficiência
A Universidade de Aveiro integra um “consórcio” de nove instituições do Ensino Superior que se juntaram para criar uma biblioteca virtual
Biblioteca Aberta do Ensino Superior (BAES) coloca à disposição da população (académica e não só) portadora de deficiência um vasto conjunto textos e partituras musicais, essenciais para os estudos. Uma plataforma à distância de um “clic”, com conteúdos acessíveis on-line e que se constitui pela articulação de três grandes áreas: produção, acesso e partilha de informação. Neste momento, possui um acervo de milhares de títulos em Braille, áudio e texto integral, de áreas disciplinares tão diferentes como Ciências Sociais e Humanas, Música, Psicologia, Tecnologias da Informação, Tradução, Matemática ou Química, entre outras. Este acervo está em constante mudança, uma vez que cada um dos nove parceiros deve inserir no sistema novos documentos, sempre que prontos a utilizar por esta comunidade “especial”.
Anabela Pereira é responsável pelo renovado serviço de documentação da Universidade de Aveiro (UA), reestruturado a 12 de Novembro e alargado às valências de museologia, bibliotecas e documentação, e, em seu entender, o BAES é “uma mais-valia para o Serviço de Bibliotecas, Informação Documental e Museologia (SBIDM) da UA, na qual a universidade acreditou e investiu”, sendo um serviço que pode ser utilizado em casa ou na biblioteca da UA. Para aceder a esta mega biblioteca virtual, basta estar registado e ser portador de deficiência.
Uma plataforma de informação sem limites
Segundo Anabela Pereira, “há muito que algumas universidades do país fazem um grande investimento em reunir material de apoio a alunos com deficiência, mas não têm passado de livros em Braille e sonoros. As novas tecnologias vieram abrir uma porta importantíssima para a massificação no acesso a esta informação digital”, explica, uma vez que cada uma das nove instituições vai disponibilizando, on-line, os documentos já preparados para serem consultados por invisuais, amblíopes, mas também indivíduos de mobilidade reduzida ou com paralisia cerebral.
Esta biblioteca virtual pode ser consultada por indivíduos integrados na comunidade académica (alunos, funcionários ou professores), mas também sem ligação à UA. “Para isso basta serem portadores de deficiência e estarem inscritos no banco de utilizadores da Biblioteca da Universidade de Aveiro. Foi uma forma de contornarmos as limitações no acesso à plataforma”, explicou a técnica ao Diário de Aveiro, defendendo que “seria uma tremenda injustiça existir esta ferramenta (que é rara) e não poder ser desfrutada por quem dela precisa”. Actualmente, o grupo de utilizadores da Biblioteca da UA conta com várias dezenas de inscritos, entre alunos, professores, investigadores e estudiosos.
Para facilitar e optimizar o acesso à Biblioteca Aberta do Ensino Superior, o Serviço de Bibliotecas, Informação Documental e Museologia da UA criou um serviço de apoio ao utilizador, coordenado pela bibliotecária Susana Andrea Martins. É ela que faz a ligação com os professores para, atempadamente, indicarem as obras que estes utilizadores vão necessitar e proceder-se ao tratamento dos documentos para integrarem a plataforma. É, igualmente, importante o contacto com o Gabinete Pedagógico, cuja coordenadora, Gracinda Martins, “identifica as principais necessidades dos alunos portadores de deficiência e, de alguma forma, medeia a articulação entre serviços”, destacou Anabela Pereira, referindo que, na UA, estão identificados cinco alunos cegos e amblíopes, alunos com paralisia cerebral e diferentes níveis de deficiência motora.
Temporariamente, a disponibilização dos documentos da Universidade de Aveiro não está a ser feita para a BAES por problemas técnicos. “Mas acredito que muito em breve a situação vai ser resolvida e podemos, então, dar seguimento ao projecto que só se completa com a partilha on-line do acervo virtual”, conclui a docente.
Tratamento dos livros pode demorar semanas
Depois de obtida a lista dos documentos que os alunos (licenciaturas e estrados) precisam de consultar, Andrea Martins procede à preparação dos documentos para serem acedidos on-line. Um processo que pode demorar semanas, tendo em conta o número de páginas e elementos adicionais, como é o caso de fotografias, gráficos, quadros… “Tudo tem de ser descrito, desde as imagens às tabelas, uma vez que estes alunos não vêm. Até o virar de página tem de ser indicado”, explicou esta bibliotecária ao Diário de Aveiro. Tudo começa com a digitalização do documento, seguindo-se a sua conversão em OCR. “Temos de proceder ao reconhecimento óptico dos caracteres, uma vez que estamos a fazer um novo documento”. Por fim o tratamento do documento para ser “visto” por um cego, reconhecendo que “esta é a parte mais trabalhosa. Todo o tipo de imagem tem de ser descrito”. O ciclo completa-se com a disponibilização da informação, que conta já com mais de 80 documentos da UA, entre textos e partituras musicais.
A academia de Aveiro preparou dois gabinetes para este fim. Um deles está adaptado a alunos com visão reduzida e conta com uma linha Braille, monitor especial e impressora Braille, enquanto no espaço adaptado a alunos de mobilidade reduzida existe um computador com ligação à Net, teclado inteligente, braço articulado, um substituto do rato, um “page turner”, entre outros equipamentos.
Fim de caixa
Destaque- A UA disponibiliza a revista Visão e Jornal de Noticias em Braille, além de uma mini biblioteca de livros de ficção