Volta a Portugal em cadeira de rodas passa pelo concelho
A terceira edição da Volta a Portugal em cadeira de rodas procura, essencialmente, sensibilizar as pessoas para a falta de acessibilidade
Vindos de Avanca, José Lima, organizador, e Rosa Carvalho, percorrem o país de Monção à Quarteira. A prova, que tem um total 827 quilómetros, arrancou dia 1 em Monção e prossegue até dia 12, finalizando em Quarteira. Ontem, a paragem foi em Estarreja.
“Esta volta a Portugal tem sido atípica”, refere José Lima. “Em 2007 não tive um único problema e foram 21 etapas, em 2008 também não e foram 15 etapas. Em 2009, logo no primeiro dia começou a chover duas horas seguidas após a saída. Tive um furo e uma paragem gástrica, isto tudo na primeira etapa. Na segunda etapa, de 85 quilómetros, rebentou um cabo da bicicleta de meter as velocidades e eu só podia vir a 20 quilómetros por hora e atrasámo-nos uma hora. Tem sido uma constante, atrasámo-nos sempre uma hora por qualquer coisa”, conta, rindo-se, José Lima. “Mas está a correr tudo bem, desde que cheguemos antes do meio-dia, está bem”, assegura.
Por motivos diversos, três dos cinco ciclistas que estavam para participar na prova não puderam estar presentes. Assim, só José Lima e Rosa Carvalho estão a correr o país de lés a lés “Para o ano devemos ser sete, a organização está a crescer e devemos ter uma parceria muito importante”, diz, acrescentando que estão a trabalhar “para que seja diferente”. E explica: “Estamos a pensar ter tendas pelo caminho, mas a volta a Portugal, designada por VPCR, está aqui para durar”.
José Lima destacou o preço dos equipamentos, que rondam os quatro mil euros. “É um equipamento muito caro, o da Rosa custa quatro mil euros, o meu custa 3.500 euros”, explica. E garante que as bicicletas que usa nem são das mais caras. “Já vi bicicletas destas – de carbono - a custarem seis mil euros”, acrescentando que não se justifica que, para se praticar desporto adaptado, “se pague por uma bicicleta quase tanto como por um carro pequeno”.
Volta como forma de protesto
O atleta conta que esta iniciativa surgiu em 2006. “Estava a escrever o meu primeiro livro e estava zangado com o sistema de saúde, porque passei oito meses no hospital por culpa de um médico, que até é um médico amigo, e devia ter direito a uma indemnização porque estava a pagar tudo cá fora e não podia trabalhar, e pensei em fazer um protesto”, relata. Foi então que surgiu a ideia de fazer a volta a Portugal em cadeira de rodas. “Eu queria fazê-la em 2006, mas como em 2007 era o ano europeu para a pessoa deficiente, comecei-a nesse ano. Durante a primeira volta, um amigo perguntou-me porque é que eu não apostava num clube para fazer isto todos os anos e achei que ele tinha toda a razão. Fizemos o VPCR, a Volta a Portugal em Cadeira de Rodas, em Viana do Castelo ao qual já temos vinte pessoas associadas. Elas não têm é dinheiro para as cadeiras”, acrescenta. José Lima confessa ter conseguido, este ano, uma parceria muito importante que já lhe valeu algumas cadeiras de rodas, e para o próximo ano conta já com seis ou sete cadeiras novas, a pagar por um valor bastante reduzido.
“Bom exemplo”
O presidente da Câmara de Estarreja, José Eduardo Matos, considera a iniciativa “um bom exemplo de como as pessoas com deficiência se podem mobilizar em termos de mobilidade e para mostrar às pessoas em geral que nós é que temos barreiras e que é possível, desde logo, montar uma volta a Portugal”.
Estarreja recebeu a bandeira de ouro da mobilidade, atribuída pela Associação Portuguesa de Planeadores do Território (APPLA), no âmbito da Rede Nacional de Cidades e Vilas com Mobilidade para Todos. “Tentou-se eliminar os pontos negros, nomeadamente as passadeiras desniveladas, postes no meio dos passeios, de forma a que as pessoas de cadeira de rodas ou muletas pudessem livremente circular no espaço da cidade de Estarreja”, refere o autarca.